Inovação para superar a crise: as apostas do setor automotivo

22/04/2021

Todos os setores da indústria automotiva brasileira estão se deparando com um grande desafio provocado pela explosão da pandemia no país: pisar no freio em relação a projetos e investimentos ou seguir adiante no desenvolvimento e pesquisas de novas tendências vislumbrando o futuro?

Em que pese algumas montadoras terem interrompido suas operações por alguns dias como precaução contra o avanço do vírus, a estratégia acerca de inovações ainda está em curso na maioria das empresas. É o que apontou a oitava edição da pesquisa Cenários para a Indústria Automobilística Brasileira, promovida por Automotive Business em parceria com a consultoria Roland Berger e que entrevistou 532 profissionais do setor.

“A Covid-19 vai determinar o avanço do nível de inovação”, resume, à luz do resultado do levantamento, Marcus Ayres, sócio global da Roland Berger. “A Toyota vem mantendo seus planos e investimentos”, assinala Rafael Chang, presidente da Toyota do Brasil. Mas destaca que o cenário no curto prazo ficaria mais favorável com um plano de vacinação acelerado, que daria mais estabilidade aos negócios.

“Não haverá recuperação se a pandemia não for varrida do Brasil”, complementa Marcus Ayres.

A opinião de Rafael Chang encontra eco em 86% das respostas da pesquisa, que sinalizam que acelerar o processo de imunização é a principal medida do governo para garantir a retomada das atividades do setor em 2021. Medidas econômicas como redução de encargos trabalhistas e da carga tributária também foram lembradas por 63% dos entrevistados.

É PRECISO DAR UM NOVO PASSO

“No passado, o Brasil adotou o incentivo aos modelos 1.0. Agora, mais de duas décadas depois, não tivemos mudanças significativas nessa política. É preciso reabrir a discussão para o bem da industrialização do setor”, afirma o presidente da Toyota do Brasil.

Carlos Abdalla, gerente de marketing, comunicação corporativa e relações institucionais da Bosch América Latina, acrescenta: “O setor automotivo vem sofrendo com demissões, fechamentos de fábricas, redução ou cancelamento de investimentos em projetos e avanços tecnológicos, além de suspender iniciativas com foco em segurança veicular e sustentabilidade”, afirma.

Não é só. Segundo Abdalla, os entraves logísticos, a falta de insumos como o aço e a forte desvalorização do real frente ao dólar elevam os custos de produção e impactam negativamente a venda de veículos no mercado brasileiro.

Para reverter este cenário, ele defende uma política industrial que atrairia uma nova onda de investimentos. “Nessa direção, o Rota 2030 é um marco importante para orientar o setor. É necessário aumentar a competitividade da porta das empresas para fora, reduzir o chamado Custo Brasil, aprovar reformas estruturais, como a tributária e investir em infraestrutura”, completa.

A CONSTRUÇÃO DO FUTURO DA MOBILIDADE

Se por um lado a Covid-19 gera preocupações sanitárias que refletem diretamente nos modelos de compartilhamento de veículos, por outro, ela vem acelerando estudos nas áreas de mobilidade, veículos autônomos, digitalização e eletrificação, embora os executivos não demonstrem grande entusiasmo de aumento nas vendas de carros elétricos antes de 2025.

“A eletrificação tem várias fases e, além do Governo Federal, que é parte fundamental nesse processo, há uma dependência dos fornecedores e da cadeia de abastecimento”, destaca Chang.

Ayres complementa: “Mesmo assim, a pandemia não esfriou a agenda da eletrificação”. Empresas como a Bosch procuram fazer a lição de casa. “Apesar das dificuldades, a pandemia apressou a transformação digital especialmente no setor automotivo”, diz Abdalla. Ele conta que a Bosch atua maciçamente nas áreas de eletrificação, veículos autônomos, conectividade e digitalização, fazendo parcerias estratégicas com empresas privadas, universidades e institutos de pesquisa. “A Internet das Coisas (IoT) está cada vez mais presente na mobilidade e a indústria automotiva tem os desafios de desenvolver carros ainda melhores e organizar os fluxos nos grandes centros urbanos”, ressalta.

Abdalla deixa claro, porém, que alguns riscos assombram a volta do crescimento dos negócios, como um possível aumento do desemprego face ao agravamento da pandemia. “A vacinação é o passo mais importante para conter a disseminação do vírus e retomar as rotinas pessoais e profissionais”, afirma. “Mas ela não elimina a continuidade, por um bom tempo, de hábitos preventivos, como evitar aglomerações, manter o distanciamento social, usar máscaras e obedecer às orientações dos órgãos de saúde.”

Para Breno Kamei, diretor de portfólio, pesquisa e inteligência competitiva para a América Latina da Stellantis, um desafio adicional é conciliar as rotinas de produção com protocolos eficazes de proteção das pessoas. “Adotamos medidas de preservação da integridade física dos nossos colaboradores. Vão desde um aplicativo que monitora diariamente o estado de saúde de cada um até o controle de temperatura corporal no acesso aos ônibus e às fábricas, que tiveram o redesenho das estações de trabalho e das áreas comuns para assegurar o distanciamento mínimo recomendado”, afirma.

APRIMORAMENTO DO E-COMMERCE

No período de pandemia, uma das áreas que mais evoluíram foi o e-commerce, devido à necessidade de se desenvolver novos modelos de vendas. Esse tema foi lembrado por 48% das respostas da pesquisa como uma das principais tendências em inovação do setor automotivo.

“O e-commerce é uma realidade mundial e ganhou força com a pandemia. Afinal, os comportamentos de consumo mudaram e a internet está se tornando a principal forma de compras. Daí a importância de estar ativo nos canais digitais”, revela Carlos Abdalla.

O executivo da Bosch faz a ressalva: antes de ingressar no e-commerce, as empresas precisam de planejamento estratégico específico para trabalhar nas mais variadas plataformas. Isso porque a ideia não é somente oferecer o produto, mas também uma experiência de compra satisfatória para o usuário, informando dados técnicos, itens de qualidade e atendimento rápido e eficiente.

PANDEMIA ACELERA TENDÊNCIAS

A pandemia ajudou a movimentar a roda de certas tendências do setor automotivo, no entanto, algumas ações já estavam em franco desenvolvimento. “Com ou sem coronavírus, o mundo dos negócios muda todo dia”, salienta Rafael Chang. “Há muito tempo entramos no universo da mobilidade e nossa visão é de médio e longo prazos. Há 30 anos, ninguém acreditava nas tecnologias limpas e a Toyota já pensava nisso.”

Roger Armellini, diretor de mobilidade e transformação de negócios da fabricante japonesa, acrescenta: “A mobilidade é um dos pilares de expansão da Toyota. Queremos provocar uma revolução com a tecnologia 5G nas centrais multimídias dos automóveis e também na comunicação entre o carro e as residências ou entre carro e a infraestrutura das cidades”, revela.

“Com a pandemia, novas oportunidades surgiram, entre elas, a transformação digital em diversas áreas”, reforça Abadalla, da Bosch. Para ele, o desempenho da companhia em 2020 em meio à pandemia superou a expectativa. “Isso se deve, sobretudo, a um dos principais diferenciais da Bosch, que é a participação em diferentes setores de negócios e aos investimentos em digitalização, pesquisa e desenvolvimento de soluções tecnológicas”, explica.

Apesar dos problemas de fornecimento de peças e componentes eletrônicos – como os semicondutres –, outros segmentos da Bosch apresentaram ótimo desempenho, como as divisões de Ferramentas Elétricas e de Reposição Automotiva, diz o executivo.

A pandemia também serviu para trazer à tona medidas que – já se sabia – eram necessárias, como a digitalização de processos e a revisão do tamanho e do papel das concessionárias. “Hoje, faz sentido as concessionárias ocuparem espaços físicos enormes?”, questiona Roger Armellini. “É possível aumentar a capilaridade e ficar mais próximo dos clientes em estruturas menores. A pandemia está nos ensinando que os serviços integrados e remotos e o fim da burocracia gerada pelo grande volume de papéis e documentos trazem mais eficiência nas operações.”

Fonte: Automotive Business

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